Drácula: Uma História de Amor Eterno (2025), de Luc Besson, é uma reconfiguração romântica do mito vampírico em que o horror é deslocado para o interior psíquico do protagonista e o conflito central passa a ser o luto. A intenção produtiva deste filme é vê o Drácula, menos como um predador puramente monstruoso e mais como um sujeito traumatizado que atravessa séculos de angústia.
Neste filme, Vlad/Drácula é uma “alma torturada” e um monogâmico radical que desenvolve o Transtorno de Estresse Pós‑Traumático (TEPT) e reativação traumática pela perda violenta do seu grande e eterno amor, Elisabeta. Por causa disso, se recusa a aceitar a finitude da vida, então blasfema e renuncia a Deus e, como castigo divino, é condenado a viver para sempre como "um monstro" até se arrepender do seu pecado. O que por consequência infeliz, também o coloca num luto sem fim (mal elaborado e mal ressignificado).
O seu trágico destino o leva a procura obsessiva por Mina, a "reencarnação" de Elisabeta, o que pode ser lido como uma defesa contra a dor psíquica da perda, pois em vez de elaborar o luto, Vlad o congela no passado procurando “reencenar/reencarnar" a mesma ligação amorosa de um único vínculo absoluto anterior, sugerindo uma organização psíquica centrada em fixação, repetição e idealização do objeto perdido. Isso o aproxima de uma lógica melancólica: resistindo adaptar o luto transformando-o em um destino impossível.
Nisso há também um forte componente narcisista: o mundo interno do personagem fica colonizado pela imagem ideal da primeira amada, e o exterior passa a ser avaliado apenas pela semelhança com essa imagem.
Isso empobrece a capacidade de reconhecer e respeitar o outro como alguém diferente de si, com valores, experiências e visões próprias, porque a outra pessoa deixa de ser sujeito e vira um suporte de uma fantasia reparadora. O “amor eterno”, nesse contexto, não é só "nobreza romântica", é também aprisionamento possessivo psíquico.
O Luto
É um processo emocional de adaptação diante de uma perda significativa, não só a morte de alguém, mas também separações, perdas afetivas, de saúde ou de projetos de vida. Costuma envolver tristeza, raiva, culpa, medo, choro, dificuldade de dormir e sensação de vazio.
Existem 5 fases do luto conhecidas proposta por Elisabeth Kübler-Ross (psiquiatra suíça):
1. Negação: a pessoa tem dificuldade de acreditar na perda e pode rejeitar a realidade;
2. Raiva: surgem revolta, frustração e sensação de injustiça;
3. Negociação/Barganha: a pessoa tenta "negociar" com a situação, com outros ou com uma crença superior, buscando aliviar a dor;
4. Depressão: aparece um sofrimento mais profundo, com tristeza intensa, recolhimento e desânimo;
5. Aceitação: a pessoa começa a reconhecer a nova realidade e a reorganizar a vida sem aquilo que foi perdido.
Mas é importante saber que o processo do luto varia muito de pessoa para pessoa. Essas fases não acontecem igual para todo mundo e não precisam ser vividas em ordem rígida, muitas pessoas alternam entre elas ou nem passam por todas. Por isso, hoje se entende o luto mais como um processo singular do que como uma sequência fixa de etapas.
No caso do Drácula de Luc Besson, o luto deixa de ser "normal" ou esperado para se tornar complicado, prolongado ou patológico, fazendo com que o luto e a aceitação da perda não sejam processados adequadamente.
No luto "normal" ou esperado
A dor costuma vir em ondas e vai, aos poucos, se reorganizando em lembranças, saudade e adaptação à nova realidade.
No luto complicado, prolongado ou patológico
A pessoa parece "presa" à perda e não consegue retomar a funcionalidade diária de forma adequada. Há sofrimento intenso e persistente, sentimentos de negação, culpa e fixação na perda que não diminuem com o tempo. Podendo causar depressão e ansiedade crônica.
Alguns sinais de alerta são:
1. Isolamento social prolongado;
2. Choro muito frequente;
3. Sensação constante de vazio;
4. Dificuldade de retomar atividades;
5. Perda de interesse pelo que antes fazia sentido e gostava;
6. Pensamentos recorrentes sobre a morte;
7. Desesperança;
8. Sensação de inutilidade;
9. Alteração importante no sono ou no apetite;
10. Grande dificuldade de aceitar a perda;
11. Flashbacks e hipervigilância.
Esse tipo de luto paralisa a vida do Vlad com prejuízo importante no dia a dia dele, fazendo o romantismo idealizado se deslocar para uma zona onde amor e dependência se confundem, pois ele prefere amar, angustiamente, uma imagem congelada no tempo ao invés de uma pessoa concreta no presente.
Isso ajuda a entender por que o filme reduz o terror explícito e valoriza a dor afetiva. A ameaça principal não é o monstro exterior, mas a impossibilidade de transformar perda em memória saudável, dramatizando a falha de simbolização: o sujeito não metaboliza a ausência e, por isso, precisa torná-la eterna. Por isso, que também, sua sensualidade aparece menos como hedonismo (prazer como bem supremo ou finalidade principal da vida) e mais como sintoma de uma busca interminável pela restauração da totalidade perdida.
OBS: Quando isso acontece é importante procurar apoio psicológico ou psiquiátrico, pois é um caso que merece extrema atenção. Procure ajuda profissional quando os sintomas forem intensos, durarem muito tempo ou atrapalharem trabalho, estudos, autocuidado e relações sociais. Se houver ideias de morte, risco de autoagressão ou incapacidade de seguir a rotina, a procura deve ser imediata.
Não existe uma "régua" exata de tempo de luto que sirva para todo mundo, o mais importante é observar o impacto na vida e a evolução do sofrimento, e ter uma rede de apoio social e validação da perda, que reconheça e aceite a dor, reduz risco de complicações. Uma psicoterapia focada no luto, como terapia de processamento do luto, Terapia Cognitivo‑Comportamental (TCC) para luto complicado e etc., pode facilitar a aceitação e reduzir sintomas depressivos e ansiosos. Avaliação psiquiátrica quando houver sintomatologia grave (ideação suicida, perda de funcionalidade) e medicação temporária pode ser necessária em conjunto com a psicoterapia.
Todos Somos Moldados Pela Sociedade, Até o Drácula!
Outro ponto importante no filme, é que a ambientação da época mostra uma dimensão social. Drácula encarna uma espécie de crise da modernidade aristocrática: ele pertence a uma ordem antiga, mas está condenado a circular por épocas que já não compartilham seus valores. Sua eternidade não é liberdade, é desencaixe histórico. Ele se torna um corpo antiquado, uma memória viva de um mundo que não pode voltar.
Essa leitura reposiciona Drácula além de uma criatura gótica, mas também que valorizava emoção, intensidade e é oposição a uma certa aristocracia de costumes. A presença de guerras religiosas e de uma Europa marcada por violência histórica também fornece um pano de fundo importante: o trauma de Vlad não surge no vácuo, ele é moldado por uma cultura de conflito, sacralização da guerra e crise de sentido.
Assim, a maldição vampírica, deste filme, pode ser lida também como uma alegoria de uma subjetividade ferida pela história, em que religião, política e violência se misturam na formação do sujeito. O resultado é um Drácula menos assustador e imperial, e mais vulnerável e interessante como estudo de apego psicopatológico, melancolia e desejo impossível, saindo do ideal aristocrático de autocontrole, poder e dominação.

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