Precisamos Falar Sobre o Kevin é uma produção impactante que explora de forma perturbadora a complexa relação ambivalente entre mãe e filho. Questionando as origens da violência extrema e traços patológicos disfuncionais de Kevin, culminando em um massacre escolar que destaca a violência juvenil. Dirigido por Lynne Ramsay (2011) e baseado no livro de Lionel Shriver (2003).
Kevin exibe desde cedo padrões de comportamento negativista, hostil e desafiador, como recusa em falar aos 4 anos, persistir em sujar fraldas deliberadamente e pintar as paredes do escritório para irritar a mãe e violar regras sociais intencionalmente, buscando reação e controle do outro.
Esse tipo de comportamento inclui perda frequente de temperamento, argumentação constante contra autoridades (especialmente a mãe, Eva), irritação crônica, vingança, falta de empatia, ausência de culpa, manipulação, impulsividade e irresponsabilidade. Por exemplo: Kevin não sentiu remorso e nem arrependimento depois de ter matado o porquinho da irmã caçula (Célia), e nem mesmo depois de causar um acidente que a fez perder um olho.
O comportamento de Kevin alinha-se aos critérios do DSM-5 para TOD (Transtorno Opositor Desafiador), que precede condutas mais graves indicando um possível TPA (Transtorno de Personalidade Antissocial). Porém no Brasil, é diagnosticável apenas após os 18 anos e com histórico desses traços desde a infância via TC (Transtorno de Conduta).
Nesse tipo de caso existe uma combinação de fatores genéticos, ambientais e sociais, com parenting falho agravando tendências antissociais. Quando as práticas parentais são inadequadas ou disfuncionais que prejudicam o desenvolvimento saudável da criança, como negligência emocional, ausência de limites claros ou superproteção excessiva.
No contexto do filme, isso se manifesta como um caso de falta de comunicação dentro da família, que fez com que se agravasse os traços antissociais de Kevin. Com a ambivalência de Eva (mãe), que nunca quis ser mãe, e a negação permissiva de Franklin (pai), demonstrando apenas carinho.
Análises winnicottianas veem nisso uma falha no "ambiente facilitador". Pois quando Kevin nasce, Eva falha em se adaptar ao bebê, levando a frustrações como preferir barulho de britadeiras nas ruas do que ao choro dele, e reagindo com agressão (jogando-o contra a parede quando Kevin suja a fralda intencionalmente depois de limpa).
Contudo, o filme evita culpabilizá-la unicamente, mostrando seu esforço e sucesso com a filha caçula e as percepções que Eva têm sobre o comportamento diferente e preocupante do filho (Kevin). Mas suas tentativas de expor ao marido são sempre frustrantes e minimizadas, pois Franklin não tem o mesmo olhar, e consequentemente sempre negligenciou a prática de impor limites e negou problemas em Kevin. Naturalizando agressões ("meninos são assim") e falhando em educar o filho e apoiar Eva, configurando omissão paterna.
E sem a "lei paterna" (Goldenberg), Kevin cresce sem freios, gerando e agravando tendências violentas por deprivação afetiva, onde Kevin expressa esperança distorcida com atos destrutivos ao se identificar com Robin Hood para justificar o massacre na escola, marcando presença na sociedade com um espetáculo violento, e a morte da irmã e do próprio pai, simbolizando rejeição ao pai ausente.
Essa dinâmica reflete expectativas sociais fantasiosas: mãe como principal cuidadora e pai como coadjuvante. Mas uma parentalidade desestruturada inclui baixa responsividade afetiva (falta de acolhimento emocional), ausência de supervisão e falha em impor autoridade, levando a insegurança, baixa autoestima e comportamentos desafiadores nos filhos.
Que se diferencia de erros pontuais por ser um padrão persistente, como a constante omissão paterna de Franklin em reconhecer sinais de alerta em Kevin. A falta de laços afetivos provoca distorções na formação da personalidade, como tendência à oposição, narcisismo, perversão e antissocialidade. Pois a criança não internaliza freios éticos ou laços seguros sozinha.
Ambientado nos Estados Unidos pós-Columbine (1999), o filme critica o individualismo, a negação de violência familiar, o culto ao sucesso pessoal, e ecoando massacres reais como Realengo (2011, Brasil). Precisamos Falar Sobre o Kevin questiona o "mito do amor materno instintivo" (Badinter), expondo pressões sobre mulheres e desamparo juvenil em famílias nucleares frágeis, onde bullying e falta de rede de apoio social amplificam isolamentos e violências.

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