"Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”
“[...] eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor…”
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, oferece uma rica narrativa em primeira pessoa contada pelo defunto Brás Cubas. Permitindo uma autocrítica profunda da sua vida fútil, elite carioca do século XIX marcada por vaidade e fracassos.
Infelizmente, muitos profissionais de psicologia ainda confundem DELIRIUM com DELÍRIO. Apesar dos termos serem parecidos, eles agem de forma totalmente diferente numa pessoa. Quando Machado de Assis nomeou o capítulo 7 de “O Delírio”, ele estava sim falando de uma forma ampla e literária, e não de uma forma psicológica psicótica. E pela descrição que Machado nos traz, Brás Cubas entrou em estado de DELIRIUM, um estado psicopatológico de confusão mental aguda, por ele estar num leito de morte causado por uma pneumonia depois de contemplar obsessivamente a lua no frio.
Mas então, qual a diferença entre Delirium e Delírio?
São termos diferentes na psiquiatria/neurologia, apesar da grafia parecida. Delírio é um tipo de sintoma de pensamento, enquanto Delirium é o nome de uma síndrome clínica aguda de confusão mental.
- Delírio (psicopatologia)
- Uma alteração do conteúdo do pensamento: a pessoa tem crenças firmes, falsas e incorrigíveis sobre si mesma, os outros ou o mundo, mesmo diante de evidências contrárias (por exemplo: "alguém está me perseguindo", "tenho um chip implantado no cérebro").
- Aparece principalmente em quadros de psicose, como esquizofrenia, transtorno bipolar em fase maníaca/psicótica ou intoxicações por drogas, e normalmente se mantém por um período prolongado se não tratado.
- Delirium (síndrome confusional aguda)
- Uma síndrome orgânica, aguda e flutuante, caracterizada por alteração do nível de consciência, desatenção, confusão mental, desorientação no tempo/espaço e alterações no ritmo sono-vigília.
- Costuma surgir de forma súbita em idosos ou pacientes hospitalizados, geralmente por causa física (infecção, desidratação, distúrbios metabólicos, efeitos de medicamentos, etc.), e melhora quando se corrige a causa de base.
Por tanto, DELIRIUM está associado a um prejuízo transitório e generalizado do metabolismo cerebral, sendo causado por uma doença de base, seja cerebral ou sistêmica, no caso de Brás Cubas foi a pneumonia, podendo ser fatal a qualquer pessoa, principalmente para bebês, crianças e pessoas com mais de 65 anos.
Devemos ter muito cuidado com a propagação das desinformações. Pois essa distinção enfatiza a análise psicológica clínica do Delirium terminal, um quadro médico-psiquiátrico real descrito na obra. Dos pacientes hospitalizados por condição médica geral, 10 a 15% podem apresentar Delirium em algum momento, principalmente pessoas idosas, onde o quadro é ainda mais frequente. E Brás Cubas tinha 64 anos quando isso ocorreu.
O "Delírio" do Capítulo 7
Machado retrata com precisão o Delirium induzido por uma pneumonia febril que levou Brás Cubas à morte, como um quadro psicopatológico clínico clássico. A partir daí mostra-se uma série de sintomas psicopatológicos referentes ao Transtorno Cognitivo Delirium em sua narração.
O personagem faz uma viagem em outra dimensão pelos seus pensamentos e relembra vários fatos importantes de sua vida, desde a juventude até a velhice, como amizades, desilusões amorosas, formação acadêmica, e etc. Nessa viagem, Brás Cubas vai até o início da formação do planeta/cosmo e vê todas as lembranças dos acontecimentos da história da humanidade se passando rapidamente. Um hipopótamo o leva para um lugar onde há neve e muito frio, conversa com a mãe natureza/pandora, lembra de todas as pessoas que conheceu, decepções, amores e brigas. E ele mesmo não se via deitado num leito de morte, mas sim se vendo de fora, como se fosse outra pessoa, sendo velado e sepultado.
Brás Cubas teve o seu nível de consciência reduzido, alterando sua atenção, concentração, integração dos estímulos ambientais e diminuição da capacidade de raciocínio. Prostrado no leito, ele entra em hiperexcitabilidade neuronal (um desiquilíbrio entre excitação e inibição nas redes neurais, em que a excitação predomina; e no contexto psicológico/psicofisiológico é quando a pessoa reage de forma intensa e prolongada a estímulos sensoriais, emocionais ou sociais) pela febre, com o cérebro em falência orgânica gerando visões regressivas. Iniciando confusão aguda, desorientação alopsíquica temporal e espacial caracterizado por alucinações vívidas e fragmentação cognitiva e regressão filogenética, conforme o DSM-5 para Delirium: alteração aguda da consciência com curso flutuante.
Psicopatologicamente, também há agitação psicomotora em Brás Cubas (quadro de Delirium Hiperativo) com insight preservado: exaltação afetiva, aumento da mobilidade da atenção, aceleração e desagregação do pensamento, e episódios de ecmnésia e hipermnésia de evocação. Pois Brás Cubas narra os excessos de recordações com oscilação entre lucidez irônica e caos perceptivo, revivendo tudo como se fosse o presente, amplificando déficits narcísicos crônicos em sintoma agudo.
Neuropsicologicamente, a pneumonia causa disfunção frontal-temporal, hiperativando o sistema límbico e podendo gerar também alucinações liliputianas distorcidas (uma forma de alucinação visual em que a pessoa vê figuras humanas ou animais minúsculos, mas com traços ou cenários alterados de modo estranho, como se o mundo ao redor dela estivesse deformado ou encolhido; acrescentando alteração na forma, proporção ou cor das figuras ou do cenário: por exemplo, braços/rostos muito compridos, corpos grotescos, objetos deformados, ou paisagens "encolhidas" que fogem da proporção real).
Mas Machado usa isso para meta-análise: o Delirium desnuda a ilusão racional da vida adulta como defesa contra o vazio pulsional. Brás Cubas emerge como um “sublime idiota” em agonia lúcida, universalizando o mal-estar psíquico brasileiro: “delírio” não é loucura, mas hiperconsciência do absurdo vital.
Freudianamente, o Delirium é a realização alucinatória de desejos reprimidos: Brás Cubas, narcisista frágil sem prole ou glória, revive ambições frustradas (califa, emplastro), com a “mulher” (mãe natureza/pandora) como objeto perdido ambivalente, maternal e castradora.
O Delirium resolve na morte com Brás Cubas transcendendo para narrador póstumo onisciente, sugerindo catarse: o colapso orgânico liberta o ego aprisionado, transformando sofrimento em ironia pós-morte. É uma transição patológica clínica, a psique humana como Delirium crônico: febril, ilusório, mas reflexivo, ecoando Adler em inferioridade compensatória terminal de Brás Cubas. Assim, seu estado terminal não é mera agonia, mas revelação psicológica do humano como “delírio consciente” ante o nada.
Póstumo, Brás Cubas ganha autocrítica, admitindo o “legado da nossa miséria” ao não transmitir filhos ou conquistas, ecoando pessimismo schopenhaueriano da vontade insatisfeita. Sua estrutura não linear, com analepses e digressões, simula tempo psicológico freudiano, mergulhando no inconsciente para desmascarar hipocrisia burguesa. Assim, representa o anti-herói realista: cético, vaidoso e tragicamente consciente da sua insignificância.


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